quinta-feira, 24 de Julho de 2014
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Andarilho japonês que morreu atropelado em Bauru pode ter filha em Marília

13/02/2014

07h55

Fonte: www.jcnet.com.br / Vitor Oshiro

Vivo, o andarilho japonês conseguiu a atenção de algumas pessoas mais solidárias que tentavam, em vão, tirá-lo das ruas. Porém, foi após a morte, que ele conseguiu mostrar que existe muita gente boa em Bauru. O misterioso homem, que foi atropelado em posse de R$ 6 mil, deve ser enterrado hoje como indigente e, com ele, muitas respostas irão embora.

A quantidade de pessoas que procuraram o JC ontem foi imensa. E elas variavam desde gente que tinha um nome para contar até quem pensou em doar o jazigo da família ou mesmo mandar um padre para fazer uma oração (leia mais abaixo).


A interrogação sobre quem foi tal homem deve continuar sem resposta. Assim como a incógnita sobre de onde ele veio. “Um dia, ele me disse que veio do Paraná e que não queria voltar para lá”, contou o padre Carlos Antônio Sanchez.

O mesmo ele teria dito para Marinês Aparecida Silvestri, 55 anos, moradora do Parque Vista Alegre. “Ele disse que se chamava Shimura e que era da região de Curitiba e Ponta Grossa”, relata.

O mesmo nome ele deu para Eulália Nunes de Almeida Serpa, 68 anos. Em dias frios, ela sai com a família para distribuir pão e leite aos moradores de rua.

Já para Mara Sakai, 57 anos, o andarilho disse que se chamava Shigueo Akira. Ao longo dos anos, ela conseguiu até tirar um sorriso do quieto homem. “Eu passava com minha perua e ele já até me conhecia. Chorei quando soube da morte”.

Sepultamento

Desde sábado no Instituto Médico Local (IML), o corpo do andarilho deve ser enterrado hoje. O diretor da instituição, Rodolfo Castilho, explica que os corpos ficam um limite de três dias à espera de identificação. “Depois, o delegado libera e o corpo é enterrado”.

O delegado responsável pelo caso, Milton Bassoto Júnior, afirma que as investigações continuarão após o sepultamento. “Ainda não conseguimos qualquer identificação. Tentamos com alguns familiares em Marília, mas nada. Já falaram que o nome dele é Jorge e também Paulo, mas nada confirmado”.

Assim, a liberação do corpo deve ocorrer hoje e o andarilho será enterrado como indigente. O sepultamento será feito pela Empresa Municipal de Desenvolvimento Rural e Urbano (Emdurb) no cemitério Cristo Rei.

Shimura, Sato, Timura, desaparecido da ditadura e tantas outras hipóteses. Talvez ser enterrado sem identificação seja  mesmo o melhor. O melhor para não individualizá-lo e, assim, quem sabe, a sociedade passe a olhar para tantos outros que ainda perambulam pelas ruas.

Eremita

O mistério seguiu também na Secretaria do Bem Estar Social (Sebes). Os agentes do local já deram assistência ao andarilho por diversas vezes. Assistência esta que se limitava a algo para comer apenas.

“Ele sempre recusou qualquer ajuda. Ele se intitulava independente e nunca conseguimos localizar os familiares ou qualquer documento”, aponta a titular da pasta, Darlene Tendolo.

De acordo com ela, o perfil do homem era diferente da grande parte dos moradores de rua.

“Ele parecia mais um eremita mesmo. E o dinheiro que estava com ele não era produto de furto ou roubo. Ele também não pedia esmolas. Acredito que esse dinheiro era dele mesmo”, complementa a secretária, que chegou a atender o andarilho quando foi assistente social.

Filha em Marília?

Um taxista que fica na rodoviária relatou que, há cerca de seis meses, uma moça foi até o local e se apresentou como filha do andarilho. “Ela disse que era de Marília”, afirma Marco Antônio Moreira, 44 anos.

O taxista ainda conta que, frequentemente, via uma pessoa trazendo dinheiro e roupa para o homem. Apesar de dizer que não tinha família, ele se emocionava quando o assunto era esse. “Poucos dias antes de ele morrer, outro taxista perguntou se ele tinha filha. Escorreu uma lágrima do olho dele”, completa.

O caso

A história misteriosa está sendo acompanhada de perto pelo JC desde o último fim de semana. O andarilho foi atropelado na quadra 4 da avenida Nações Unidas no sábado. Ele foi atingido por uma caminhonete, chegou a ser socorrido, porém morreu no local.

O condutor do veículo disse que não conseguiu evitar o acidente. No momento da colisão, o andarilho vestia sete blusas. Quando a equipe médica retirou as peças de roupa, encontrou centenas de cédulas e moedas espalhadas pelos bolsos, totalizando R$ 6.015,96.

Conta judicial

O dinheiro segue apreendido pela Polícia Civil. Muitas pessoas pediram que o montante fosse usado no velório da vítima. Porém, é algo impossível por lei. O valor fica depositado em conta judicial e, caso não surja nenhum familiar, vai para o Estado.

As impressões digitais foram colhidas e, caso a vítima tenha retirado algum documento no Estado de São Paulo, as respostas devem vir ainda este mês.

Mulher ofereceu até jazigo da sua família

Em uma época de tanto individualismo, casos assim parecem restabelecer a crença na humanidade. Uma mulher que sempre via o andarilho pelas proximidades da rodoviária ofereceu o jazigo de sua família para que ele fosse sepultado.

“Eu sempre via ele por ali. Essa história de ele ser enterrado como indigente é muito triste. É uma pessoa. Uma vida que se foi. Eu tenho um jazigo no Cemitério da Saudade e ofereço para ele ser enterrado lá”, diz Cirlene Terezinha Ramos Lacerda, 59 anos.

No local, porém, há um familiar que foi sepultado há aproximadamente um ano. A Emdurb informa que, para isso, precisaria que o corpo já estivesse lá após três anos.

Já Maria Ângela Gori Lima, 55 anos, quer saber a data do enterro para que, mesmo no anonimato, a cerimônia tenha uma bênção religiosa. “Eu participo de um grupo que faz o acompanhamento de moradores de rua e atendemos ele. Gostaria de levar um diácono no enterro”.

Taxistas fizeram ‘vaquinha’ após andarilho ter a carriola roubada

Na pequena carriola que o homem levava quando foi colhido pelo veículo, havia algumas peças de roupas, água, tênis e alguns sapatos – até de marcas conhecidas. Contudo, este foi o terceiro carrinho de mão que ele teve em 2014. Nem mesmo o andarilho escapou da ação dos usuários de crack em Bauru.

Os taxistas da rodoviária contam que o japonês foi roubado duas vezes este ano. Em um desses crimes, podem ter sido levados os documentos que colocariam fim ao mistério.

“Eles levaram a carriola dele. Nós, os taxistas, fizemos uma vaquinha e compramos outra carriola. Arrecadamos R$ 90,00. Mas os ‘noias’ viram que era novinha e levaram de novo. Agora, ele tinha arrumado esta usada que carregava quando foi atropelado”, conta o taxista Hamilton Moreira Cangussu, 64 anos.

Assim como a curiosidade sobre a identificação e o passado do homem, são os boatos acerca de toda a história. Alguns dão conta de que havia até passaporte na carriola que foi levada pelos bandidos na primeira vez.

 

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