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Esportes

Danilo Avelar esquece ‘’crise dos 30’’ e vira líder no Corinthians: ‘’Não vim de passagem’’

29 de Maio de 2019

14h08

Fonte: globoesporte.globo.com

Mais "cascudo" e querido pela Fiel torcida, Danilo Avelar vive a melhor fase da carreira no Corinthians. Às vésperas de completar 30 anos, o lateral-esquerdo não se assusta com as possíveis crises que a idade simbólica possa trazer. Quer curtir o momento.

Passado o nervosismo por ostentar a faixa de capitão do Timão pela primeira vez, o defensor atendeu a reportagem do GloboEsporte.com e explicou não só como sofrimentos e incertezas no período de Europa o fizeram evoluir, mas também como quer despontar como uma das lideranças do Corinthians. Não está nos planos sentir o peso dos 30.

Avelar está emprestado pelo Torino, da Itália, até julho. O Corinthians já notificou o clube italiano sobre a intenção de comprá-lo. A negociação, assegura o ala, nunca lhe tirou o sono, mas a proximidade de um desfecho positivo proporciona certo alívio. Avelar deve assinar um contrato de três temporadas e confirmar o que sabia desde o início: não veio ao Corinthians de passagem.

– Trinta falam que pesa, né? Se vier com um bom contrato, melhor ainda. Hoje, estou no melhor momento da minha carreira. Toda a minha ascensão na carreira aumentou aqui. Vim com a meta de ganhar títulos e consegui. Não vim de passagem, vim para ficar. Deixar meu nome no clube. Sei que posso acrescentar ainda muito mais. Aqui, me sinto em casa. Nada mais justo do que corresponder em campo com títulos coletivos e pessoais – afirmou.

Avelar faz aniversário no próximo dia 9 de junho, mesmo dia de Ralf, três dias depois de Cássio e dois dias antes de Fagner e Vagner Love – ele pensou até em comemorar o bom momento e a chegada dos 30 anos com uma festa compartilhada com os demais aniversariantes.

Não vai acontecer por uma série de compromissos pessoais de cada um. Mesmo assim, o orgulho de ter sido capitão do Timão pela primeira vez na partida contra o Athletico-PR, no último dia 19, não será esquecido. Pressagio do que os 30 anos podem lhe trazer.

– Fiquei nervoso, fiquei emocionado, é um momento único. Uma experiência que me deixou muito orgulhoso. Não imaginava, é muita responsabilidade. Vestir essa camisa é diferente. Ser capitão, então, maior ainda.

Para chegar ao Corinthians com a certeza de não estar de passagem, Avelar passou anos na Europa. De 2010 a 2018, viveu de discriminação na Ucrânia por ser brasileiro até um ano e meio sem jogar na Itália por uma série de lesões nos dois joelhos e tratamento inadequado. Experiências que o fazem despontar como um líder dentro do elenco do Timão.

– Ter a cabeça boa faz muito a diferença. Meu sofrimento na Europa me deixou cascudo e mais preparado para tudo. Sei que aqui posso acrescentar ainda mais, ajudar fora de campo, ter uma liderança, uma postura diferente. Tantos sonham com Europa, eu estive por quase dez anos por lá e posso falar como é. Posso dar dicas que eu não tive quando fui. Aprendi sozinho, na marra. Acho que posso ajudar muito dentro e fora de campo – assegura, e segue:


– Quanto maior a escalada, maior a responsabilidade. Eu tenho que provar ainda mais, sei que posso mais. Sabia que teria um período de adaptação aqui, mudança de ambiente, estilo em campo. Sabia que iria sofrer, mas também sabia que as coisas iriam acontecer. Sabia que iria me impor, minha liderança, meu comportamento, minha postura e, consequentemente, coisas iriam acontecer. Talvez eu tenha chegado ao Corinthians em um pior momento e isso foi positivo porque pior do que estava não tinha como ficar. Não penso que já provei o que tinha de provar.

Os clubes de Danilo Avelar antes do Corinthians:

Rio Claro (2008 - 2010)
Karpaty (Ucrânia) (2010/11 e 2011/12)
Schalke 04 (Alemanha) (2011)
Cagliari (Itália) (2013/14 e 2014/15)
Torino (Itália) (2015-2017)
Amiens (França) (2017/18)
Sem visão, avó é 'telespectadora'
Corintiano desde pequeno, Avelar costuma reunir a família em datas comemorativas. Das mais de 100 pessoas que se juntam em sua casa, a avó é tratada com carinho especial. Com problemas que a impedem de enxergar, ela costuma se animar com os jogos do neto.

O apoio da família, porém, não se restringe a ela. Em dias de jogos importantes, caravanas vêm de Paranavaí, no Paraná, para assistir o lateral.

– Ela fica escutando, assiste novela, diz que enxerga tudo. Não tem visão, mas diz que assiste. Venho de família grande. Muita gente mesmo. Maioria é corintiana, vem de berço, não tem como fugir disso. Todos corintianos, sempre foram fanáticos. Quando tem jogos importantes, sempre vem dois ônibus com 40 pessoas cada. São 800 km. Então, se tornou uma rotina interessante. Quem não era corintiano, começou a ver os jogos. Criou-se um laço diferente.

Em um futuro breve, quem sabe, Avelar poderá levará os filhos ao estádio do Timão.

– Vou casar em um futuro breve. Projetamos ter filhos. Temos uma cabeça tranquila, não precisa ser às pressas. Vamos curtir os dois e depois ter um filho – contou Avelar, citando a namorada Natalia.

Leia mais da entrevista com Danilo Avelar:
Globoesporte.com: Qual a maior dificuldade que você enfrentou na Europa?
Danilo Avelar: – Hoje, eu consigo analisar que não foram dificuldades. Foram experiências e aprendizados, levei muito bem a situação. Quando eu saí do Brasil e cheguei na Ucrânia, ali foi um momento muito importante para me deixar cascudo para enfrentar a Europa. Comecei em um país muito mais difícil do que sair do Brasil para ir para a Espanha, Portugal. Fui para o outro lado, não conhecia absolutamente nada, pouco se falava, pouco se sabia. Enfrentei coisas que eu não imaginava. Racismo por ser estrangeiro, enfrentar jogos com menos 20 graus, muitas coisas que analiso como aprendizado. Foi a maior experiência que eu tive. Quando fui para Alemanha, Itália e França, se tornou meio que fácil. A parte mais grossa com Europa foi num dos lugares mais difíceis. Ali, me deixou mais forte.

Que tipo de preconceito?
– Quando falo em preconceito, são as reuniões dos atletas. O jogador brasileiro quando vai para a Ucrânia é visto como o principal. Não há dúvida, tanto que os títulos de Dínamo (de Kiev) e Shakhtar (Donetsk) foram influenciados pelos brasileiros. O atleta ucraniano vê isso com um pouco de inveja. Quando chega um atleta brasileiro em um time ucraniano, os ucranianos do elenco analisam que veio para roubar a vaga de um atleta local e não para ajudar o time a ganhar títulos. Isso influencia no sentido que, às vezes, têm reuniões e deixam o atleta brasileiro fora, muito fuxico, não dão atenção, deixam você de lado. Às vezes, um churrasco deixam a gente de fora, aconteceu isso comigo.

E como lidou com tudo isso?
– Todo jogo eu estava jogando. Pouco importava o que eles falavam, porque eu realmente não entendia nada. Estar jogando foi fundamental para mim, não foi mais complicado só por isso.

Na Itália você também enfrentou dificuldades... 
– O momento mais difícil foi quando eu tive a lesão no Torino. Período muito escuro para mim, não encontrava uma saída, uma solução. O tempo foi passando e nada foi se resolvendo, ali foi um momento no qual eu estava em muita ascensão e isso não poderia ter acontecido. Porém, aconteceu, faz parte dos trabalhos. Eu fiquei bem chateado. Fiquei lesionado o período de seis meses, comum para o rompimento do ligamento cruzado, mas, entre idas e vindas, não me trataram bem e acabei perdendo um ano, um ano e meio.

Quando você chegou ao Corinthians, também passou por um período difícil, criticado... Teve medo de não dar certo aqui?
– Não. Eu sabia o que tinha para mostrar e isso me deixava tranquilo. Diante de tantas críticas, eu sempre estava jogando. Então, não entrava na minha cabeça concordar com o que estavam falando. Primeiro, porque acreditava em mim. Segundo, porque pessoas que trabalhavam aqui acreditavam em mim. Ponto. Sabia que as coisas iriam mudar. Não me questionei. Fiquei quieto, trabalhei em silêncio, sabia que iria crescer.

E entende que as críticas em relação ao desempenho do time são justas?
– Torcedor é movido a emoção, a momento. Então, você acha que um clássico tem de ser ganhado na porrada e, às vezes, a estratégia é outra. Às vezes, contra um time de menor expressão, temos uma estratégia diferente, e o torcedor exige goleada.

– O futebol mudou muito, só quem está no dia a dia sabe que é diferente do que analisar na arquibancada ou na televisão. Já fui torcedor de arquibancada e televisão e sei que é diferente do que quando você olha dentro e sabe o porquê de fazer um cruzamento ali, não vai muito para o ataque, defender mais do que atacar. Tudo tem motivo, nada é em vão. Tudo é estudado. Mudou muito. Antes, entrava em campo e o que rolava, rolava. Hoje, é como um jogo de xadrez, tem muito detalhe, é muito estudado. O torcedor não está no dia a dia para saber como funciona, acaba exigindo algo excessivo e sabemos que não é assim.

A cobrança é exagerada em cima do seu desempenho e do coletivo?
– Realmente, é uma cobrança gigante e tem que ser porque estamos no Corinthians. Não há outro bom resultado que não seja o título. Vão exigir, vão cobrar. Mas eu acho que o empregador, ou neste caso o torcedor, cobra quando vê um bom funcionário. Acredito que essa seja a cobrança do torcedor em cima de um atleta, vê que pode dar frutos. Se cobra, é porque vê que pode ser correspondido.

O Júnior Urso disse que sente que o Corinthians é o clube mais odiado pelos rivais. Sente isso como torcedor e estando aqui dentro?
– Sinto isso, sim. Quando era mais novo e torcia, meus amigos eram palmeirenses ou outros clubes. Só tenho uns três amigos corintianos, e as pedradas a gente é quem levava. Quando a gente ganhava títulos, devolvíamos a pedrada. O Corinthians é gigantesco, e os outros ao redor, acima ou abaixo, vão se incomodar. É normal ter mais rivais, mais incômodo, mais tudo. No Corinthians, é sempre para mais. Mais críticas ou mais elogios.

Se seguir como está, se imagina na seleção brasileira?
– Isso só vai acontecer se eu conseguir ter um resultado merecedor no clube. Nenhum atleta vai à Seleção por gosto do treinador. Acho que é por merecimento pelo que está fazendo dentro de campo. Se eu seguir em ascensão no Corinthians, ganhando títulos individuais, títulos e boas partidas, vai ser porque estou apresentando algo positivo. Não almejo a Seleção, mas almejo crescer cada vez mais no Corinthians. Seleção vai surgir como consequência do meu trabalho.

Você levou crianças com síndrome de down à Arena. Costuma fazer trabalhos sociais?
– Na verdade, essa parte social eu sempre fui muito ativo. Na minha cidade, faço muitas ações. Beneficio atletas, criançada que quer ser atleta. Tem uma casa da criança que mantenho o projeto de todo ano faço a Copa Danilo Avelar Casa da Criança, que envolve mais de 400 crianças carentes para fazer jogar futebol e tentar um dia ser atleta. Gosto de proporcionar esses momentos para quem tem alguma dificuldade seja financeira, seja de qualquer tipo. Quando teve as crianças com síndrome de down, minha assessoria me alertou do pessoal que estava em uma data internacional. Abracei a causa, achei interessante e não medi esforço para realizar tudo isso.

Quais lembranças você tem do Corinthians na infância e adolescência?
– Eu lembro bem distante de que uma vez o Corinthians foi fazer um jogo na minha cidade, em Paranavaí, tinha o Tupãzinho, que depois de muito tempo foi jogador do time da minha cidade, o ACP. Então é uma memória diferente, foi meu primeiro contato vendo atletas do Corinthians. Foi em 1995, 96, alguma coisa assim. Fui no jogo, meu pai é corintiano e me levou no jogo.

– Depois, outro contato que eu tive, na época que tinha o Daniel Passarella como treinador, de Tévez, Mascherano, foi que o Corinthians foi jogar uma Copa do Brasil em Maringá, contra o Cianorte, perdeu de 3 a 0 e depois reverteu o placar aqui. Foi a primeira vez que vi o futebol de perto, analisando melhor, um pouco maior, eu entendia um pouco mais de futebol. Eu fiquei meio triste que perdeu, mas depois conseguiu reverter o resultado em São Paulo.

Pensou que jogaria no clube um dia?
– Não. Seria hipócrita em falar que sim. As coisas se tornaram naturais na hora certa. Jogava futsal, não tinha essa ambição gigante.

No Rio Claro, chegou a enfrentar o Corinthians?
– Enfrentei o Corinthians no Paulistão de 2010. No último jogo, quando precisávamos do resultado para não cair e ainda torcer por outros resultados. Foi no Pacaembu, Corinthians de Ronaldo, Roberto Carlos... Um erro nosso ter feito o primeiro gol, incomodou os caras, perdemos de 5 a 1 e fomos rebaixados. Levei um corte do Ronaldo que falo para todo mundo até hoje que foi o melhor drible da minha vida.