08h25
Por Denise Meira do Amaral Takeuchi – especial para o Portal de Notícias Bastos Já
Um dos episódios mais traumáticos — e menos conhecidos — da história da imigração japonesa no Brasil voltou ao centro das atenções a partir de uma busca pessoal. A diretora e roteirista Tainá Muhringer Tokitaka está à procura de relatos, memórias e testemunhos de moradores de Bastos e região que tenham vivido, presenciado ou ouvido histórias sobre a atuação da Shindo Renmei - movimento ultranacionalista criado na década de 40 para celebrar as virtudes do Império japonês e cultivar valores patrióticos entre os colonos. O material integra a pesquisa do documentário “Perigo Amarelo”, atualmente em desenvolvimento.
“Fazer essa busca é resgatar uma memória familiar perdida e que, entendo, não é só minha; é de muitas famílias de nipo brasileiros. Por isso, quero conversar com outras pessoas que, assim como eu, possam ter fragmentos de memórias pessoais sobre a Shindo Renmei para que, juntos, a gente possa montar esse quebra-cabeça”, conta a diretora.
No final da Segunda Guerra Mundial, o Brasil foi palco de um conflito interno que dividiu profundamente as colônias japonesas. Alguns integrantes da Shindo Renmei, que não acreditavam na derrota do Japão na guerra, passou a perseguir e assassinar japoneses que reconheciam o fim do conflito — os chamados “corações sujos”. Bastos, um dos principais polos da imigração japonesa no país, foi diretamente impactada por esse período de tensão, medo e violência.
Apesar da gravidade dos acontecimentos, o tema permanece pouco explorado pela historiografia brasileira e, em muitos casos, cercado por silêncio dentro das próprias famílias. Estima-se que ao menos 23 pessoas tenham sido assassinadas em atentados ligados à organização, além de dezenas de feridos.
A repressão do Estado brasileiro foi intensa: escolas foram fechadas, o uso da língua japonesa foi proibido em espaços públicos e publicações em japonês foram censuradas. Ao menos dez mil imigrantes foram fichados pelo DOPS, muitos sem qualquer ligação comprovada com a Shindo Renmei. Prisões arbitrárias, criação de campos de concentração e perseguições marcaram esse capítulo sombrio do pós-guerra.
O documentário “Perigo Amarelo” nasce justamente do desejo de romper esse apagamento histórico. A investigação parte não apenas de arquivos oficiais e documentos policiais, mas também de uma dimensão íntima: há indícios de que o bisavô da diretora, Taro Tokitaka, e talvez seu avô, José Tokitaka, tenham integrado a Shindo Renmei: um assunto que sempre foi evitado em sua família.
Ao buscar histórias em Bastos, o projeto pretende reunir relatos que nunca chegaram aos livros: lembranças fragmentadas, segredos de família, cartas, fotografias, e histórias guaradas por gerações. Para muitos descendentes de japoneses, falar sobre a Shindo Renmei ainda é doloroso — seja por vergonha, medo ou pelo receio de reabrir feridas antigas. O filme propõe um olhar cuidadoso, sem julgamentos, interessado em compreender o contexto daquele período.
A pesquisa do documentário está sendo feito por Denise Meira do Amaral Takeuchi, filha de Clara Kudo, nascida em Bastos, e a produção, por Angelo Ravazi, sócio-fundador da produtora Massa Real.
A equipe do filme reforça que a pesquisa segue aberta e depende da colaboração da comunidade. Moradores de Bastos e região que tenham histórias, documentos, lembranças ou conheçam familiares envolvidos direta ou indiretamente com a Shindo Renmei são convidados a entrar em contato. Lembrando que os depoimentos podem ser anônimos também.
Os relatos podem ser enviados para: [email protected]